Materiais de estudo

Arquitetura da pesquisa

A orientação comum adotada pelo grupo para formular e estruturar pesquisas, construída a partir do diagrama do professor Armando Marino Filho e articulada ao método histórico-dialético.

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Ponto de partida

Uma pesquisa não é a justaposição de tema, técnica e dados.

Em uma perspectiva histórico-dialética, conhecer exige reconstruir conceitualmente as relações que fazem o objeto existir e movimentar-se como uma unidade concreta. O percurso parte de uma representação ainda difusa da realidade, diferencia suas determinações por meio da análise e retorna a uma síntese mais concreta e explicativa.

A palavra “arquitetura” não designa uma receita fixa. Assim como uma construção se sustenta pela relação entre seus elementos, cada definição metodológica adquire sentido no vínculo com as demais e pode ser revista quando a investigação produz novas determinações.

I · Referência metodológica comum

A sequência que orienta a produção das pesquisas do grupo.

Documento de referência

Armando Marino Filho
Diagrama para a produção da estrutura do texto
PPGEdu/UFMS, Câmpus de Três Lagoas, 2025.

O diagrama não opera como uma linha que autoriza avançar independentemente dos resultados anteriores. Cada pergunta funciona como controle de coerência: uma resposta negativa determina o retorno ao objeto, às conexões funcionais, ao problema ou ao objetivo que precisa ser reformulado.

  1. 01

    Título provisório

    Formular o título pela relação entre objeto, contexto e problema. Ele funciona como uma primeira síntese e deverá ser revisto quando qualquer um desses elementos se modificar.

  2. 02

    Existência e forma do objeto

    Perguntar se o objeto existe na realidade concreta. Se existe, descrever a forma pela qual se manifesta; se não existe, retornar ao início e rever a própria delimitação.

    Verificação: o objeto é uma unidade real e não apenas uma denominação abstrata?
  3. 03

    Conteúdo e conhecimento produzido

    Examinar se o conteúdo do objeto é conhecido. Quando não for, investigar criticamente o conhecimento já produzido antes de prosseguir.

    Retorno: a insuficiência de conhecimento exige revisão bibliográfica e nova análise do objeto.
  4. 04

    Objeto como sistema

    Descrever forma e conteúdo, identificar as unidades constitutivas e reconstruir suas ligações e conexões funcionais como um sistema.

  5. 05

    Contexto como sistema

    Verificar se o objeto existe concretamente no contexto delimitado. Quando existe, descrever o contexto como sistema de condições, relações e determinações; quando não existe, rever o objeto.

    Verificação: objeto e contexto constituem uma relação concreta e demonstrável?
  6. 06

    Natureza e disfunção do problema

    Definir se o problema é teórico ou explicativo, prático ou instrumental, funcional ou sistêmico, e explicitar por que representa um movimento disfuncional no objeto como sistema.

    Retorno: se a disfunção não puder ser demonstrada, reexaminar as conexões funcionais do objeto.
  7. 07

    Hipótese

    Produzir uma hipótese que responda ao problema e verificar sua coerência com o objeto, o contexto e a natureza da disfunção identificada.

    Retorno: uma hipótese incoerente exige nova explicitação do problema.
  8. 08

    Objetivo geral

    Definir o objetivo geral do texto como movimento de conhecimento coerente com a hipótese e com a explicitação do problema.

    Retorno: se essa coerência não estiver presente, reformular o objetivo geral.
  9. 09

    Estrutura da exposição

    Organizar introdução, tópicos e subtópicos da exposição argumentativa, ideias principais de cada parágrafo e considerações finais, incluindo os parágrafos que as comporão.

II · Mapa conceitual

Do real concreto ao concreto pensado.

Este mapa situa a sequência do diagrama no movimento mais amplo da investigação. A numeração tem função didática: o avanço depende dos retornos de coerência indicados na seção anterior.

  1. 01

    Realidade concreta

    Ponto de partida constituído por processos, relações e condições históricas que existem independentemente da forma inicial como são percebidos.

  2. 02

    Objeto

    Unidade real cuja existência e cujo movimento precisam ser reconstruídos conceitualmente; não é um recorte arbitrário nem apenas o tema escolhido.

  3. 03

    Contexto

    Unidade estruturada dos sistemas de determinações nos quais o objeto existe e encontra possibilidades, limites, controles e mediações.

  4. 04

    Problema e pergunta

    A contradição, disfunção ou insuficiência que obsta ou obscurece o movimento necessário do objeto e a formulação interrogativa que orienta sua investigação.

  5. 05

    Hipótese

    Síntese explicativa provisória sobre relações e determinações ainda não suficientemente demonstradas, aberta à revisão no processo investigativo.

  6. 06

    Objetivos

    Movimentos cognoscitivos necessários para responder ao problema: o objetivo geral expressa a finalidade, e os específicos explicitam suas mediações.

  7. 07

    Método e procedimentos

    O método orienta a lógica da reconstrução; os procedimentos definem como serão produzidos, selecionados e examinados os materiais da pesquisa.

  8. 08

    Análise e exposição

    A análise reconstrói relações e determinações; a exposição apresenta o movimento do objeto como uma síntese conceitualmente organizada.

Relações conceituais

Cada elemento se define no movimento do conjunto.

Objeto ↔ contexto

O contexto não circunda um objeto já pronto: seus sistemas de determinações participam da constituição concreta do objeto. A delimitação de um modifica a compreensão do outro.

Pergunta orientadora
Em quais sistemas concretos esta unidade existe e se movimenta?
Cuidado
Evitar tratar o contexto como cenário, local ou lista de fatores externos.

Problema ↔ hipótese

O problema explicita o que exige investigação; a hipótese formula uma possibilidade explicativa. Quanto mais preciso é o problema, menos arbitrária se torna a hipótese.

Pergunta orientadora
Que relação ainda não explicada torna necessária esta pesquisa?
Cuidado
Evitar transformar a hipótese em resposta antecipadamente confirmada.

Objetivos ↔ método

Os objetivos indicam o movimento de conhecimento necessário, enquanto o método organiza a passagem entre perguntas, fontes, procedimentos, categorias e síntese.

Pergunta orientadora
Que operações de pensamento e investigação permitem alcançar a finalidade proposta?
Cuidado
Evitar confundir objetivos específicos com cronograma de tarefas.

Análise ↔ exposição

A ordem em que se investiga não precisa coincidir com a ordem em que se apresenta. A exposição deve tornar inteligíveis as relações reconstruídas pela análise.

Pergunta orientadora
Qual ordem permite compreender a gênese, a estrutura e as tendências do objeto?
Cuidado
Evitar apenas reproduzir a sequência de coleta ou descrever dados isolados.

Compromissos metodológicos

Critérios para não reduzir o objeto à sua aparência imediata.

01

Totalidade determinada

Investigar a unidade das relações relevantes para o objeto, sem pretender abranger tudo nem somar elementos indiferenciados.

02

Historicidade e gênese

Perguntar como a forma atual foi produzida, que transformações a constituíram e que tendências de desenvolvimento ela contém.

03

Mediações concretas

Reconstruir processos e relações que vinculam determinações gerais às formas particulares e singulares de existência do fenômeno.

04

Contradição e movimento

Identificar relações que simultaneamente conservam e tensionam o objeto, produzindo limites e possibilidades de transformação.

05

Unidade entre teoria e material

Usar categorias para interrogar o real, permitindo também que o material investigado exija revisão e maior precisão conceitual.

06

Ética e reflexividade

Explicitar limites, posições e efeitos da investigação, preservando direitos, dignidade, autoria e condições concretas dos participantes.

Ferramenta de trabalho

Roteiro para elaborar ou revisar um projeto.

As primeiras treze questões operacionalizam a sequência de Marino Filho; a última registra os desdobramentos específicos exigidos por cada objeto. Todas as respostas são provisórias e devem ser revistas quando uma relação de coerência não se sustentar.

  1. 01

    Título provisório: como ele articula objeto, contexto e problema?

  2. 02

    Existência concreta: o objeto existe na realidade investigada ou precisa ser redefinido?

  3. 03

    Forma do objeto: por quais manifestações concretas ele pode ser reconhecido e descrito?

  4. 04

    Conteúdo e conhecimento produzido: o que já se conhece e que revisão ainda precisa ser realizada?

  5. 05

    Objeto como sistema: quais são suas unidades, ligações, conexões funcionais e formas de movimento?

  6. 06

    Contexto como sistema: em quais condições, relações e determinações o objeto existe concretamente?

  7. 07

    Natureza do problema: ele é teórico ou explicativo, prático ou instrumental, funcional ou sistêmico?

  8. 08

    Disfunção: por que o problema obsta, desvia, limita ou obscurece o movimento necessário do objeto?

  9. 09

    Hipótese: que resposta provisória pode ser produzida para o problema?

  10. 10

    Coerência da hipótese: ela se sustenta na relação entre objeto, contexto e problema ou exige retorno à formulação anterior?

  11. 11

    Objetivo geral: qual movimento de conhecimento decorre da hipótese e do problema explicitado?

  12. 12

    Coerência do objetivo: ele responde ao problema e mantém relação demonstrável com a hipótese?

  13. 13

    Estrutura do texto: quais serão a introdução, os tópicos e subtópicos argumentativos, as ideias centrais dos parágrafos e as considerações finais?

  14. 14

    Decisões específicas da pesquisa: quais objetivos específicos, fontes, participantes, procedimentos, cuidados éticos e operações de análise são exigidos pelo objeto?

Referências de base

A síntese remete às obras, não as substitui.

Obras orientadoras

  • MARINO FILHO, Armando. Diagrama para a produção da estrutura do texto. Material instrucional do Curso Preparatório para o Mestrado, PPGEdu/UFMS, Câmpus de Três Lagoas, 2025.
  • MARX, Karl. Introdução de 1857: o método da economia política.
  • MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach.
  • VIGOTSKI, Lev S. Teoria e método em psicologia.
  • ILYENKOV, Evald V. Dialectical Logic: Essays on Its History and Theory.
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